Resumo do Capítulo “Expectativas paternas e experiências dos estudantes num internato: referências para o desenvolvimento de uma prática pedagógica mais ampla”

SILVA, Demóstenes Neves da; RABINOVICH, Elaine Pedreira. Expectativas paternas e experiências dos estudantes num internato: referências para o desenvolvimento de uma prática pedagógica mais ampla. In: MOREIRA; CARVALHO (Coord.). Família e educação. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 140-163.

 harlon.romariz@advir.com

      Este texto é parte de um estudo mais amplo que procurou compreender as trajetórias de jovens num internato, localizado em Cachoeira-Ba, denominado Instituto Adventista de Ensino do Nordeste (IAENE).

      O internato surge como instituição educacional no seio europeu a partir da concepção pedagógica de que a formação do homem ideal poderia ser obtida com a separação da criança da sociedade, visando o preparo acadêmico e moral do educando. Existem argumentos a favor e contra o sistema de internato, principalmente contra os internatos que seguem modelos mais remotos e /ou tradicionais.

   Bronfenbrenner considera as capacidades humanas e suas realizações significativamente dependentes do contexto social e institucional mais amplo. Chamou atenção para a interação de vários níveis, os quais influenciam e são influenciados por fatores presentes e ausentes. Ele apresenta quatro elementos desenvolvimentais: o processo, a pessoa, o contexto e o tempo.

    As perspectivas e expectativas paternas encontradas nos questionários e nas conversas informais veem o internato como: (I) compensação, sugerindo que as famílias não conseguem suprir todas as necessidades educacionais e não se acham capazes de transmitir aos filhos os valores que julgam necessários; (II) fator de crescimento do filho, o fato dos alunos estarem expostos a diversas decisões e situações os prepararia para a vida, assim o internato teria a vantagem de tornar os filhos em pessoas “responsáveis” e “independentes”, (III) além do mais os pais esperam que o internato supra as necessidades dos filhos, sendo diligente e cuidadoso para com eles; (IV) desenvolvimento acadêmico, o fato de o aluno possuir diversos recursos como sala de estudo e horários programados ou uma estrutura rica (como a biblioteca) em equipamentos leva os pais a terem mais essa expectativa.

      As perspectivas dos internos foram qualificadas por meio do método de fotografias e grupo focal. Algumas dessas perspectivas ou aquilo que alunos consideraram condições e oportunidades favoráveis à experiência no internato foram: as condições de estudo, o trabalho, o desenvolvimento pessoal, aprender a se relacionar, trabalhar duro, ser competente e cumprir regras.

     Existem os fatores que não satisfazem aos alunos internos e que podem produzir diversas trajetórias dependendo das condições biopsicológicas do indivíduo. (I) A limitação do espaço livre, (II) as gestões autocráticas, (III) ausência de diálogo aberto e franco, (IV) e a exclusão da família e dos alunos na tomada de decisão que interfere no grupo, são esses os fatores negativos. As trajetórias decorrentes que podem possivelmente serem tomadas pelos filhos-alunos e que estão na perspectiva de Bronfenbrenner, são: sentimento raiva, agressividade, transgressão, depressão (no sentido de auto-anulação), paralisia (acomodação), fuga ou abandono e demonstração aparente de obediência. Essa reação pode se dar com/nos (os) diversos níveis (microssistemas, mesossistemas, macrossistema) pela qual encontrasse o indivíduo.

   Assim é possível referenciar o desenvolvimento de uma prática pedagógica mais ampla, primeiramente para o contexto do internato, mas também com outras aplicações indiretas. É necessário avaliar as expectativas paternas e dos estudantes, além de tentar manter ao máximo uma estrutura que garantam a satisfação de suas necessidades e vontades. Sem a presença dos fatores promotores da tensão.

 harlon.romariz@advir.com

Links sobre o assunto:

“Conheça Summerhill, a escola em que o aluno pode (quase) tudo” (Revista Nova Escola)

EDUCAÇÃO PARA A SUSTENTABILIDADE: a proposta da alfabetização ecológica

Resumo

Este artigo apresenta a proposta da Alfabetização Ecológica como um meio de educar para a sustentabilidade. A Eco-alfabetização possui princípios baseados na ecologia e tem a teoria dos sistemas vivos como um norte teórico que forma sua visão e práxis.

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harlon.romariz@advir.com

Abstract
This paper show a proposal of Ecological Literacy as a education way to sustainability. The Ecoliteracy has principles based on the ecology and has the theory of living systems as a guide that form their vision and praxis.

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Resumo do capítulo “Cuidado e negligência na educação da criança na família”

por Harlon Romariz

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BIASOLI-ALVES, Z. M. M. Cuidado e negligência na educação da criança na família. In: MOREIRA, Lúcia Vaz de Campos; CARVALHO, Ana M. A. (Org.). Família e educação. São Paulo: Paulinas, 2008. p. 18-32.

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O conceito de infância além de aparecer tardiamente na evolução da humanidade, ainda passou por mudanças substanciais ao longo da história.

A forma como as famílias entenderam o cuidado e a educação das crianças ao longo do século XX e as formas de enfrentamento no atendimento das necessidades desses jovens é brevemente apresentado nesse relatório de algumas pesquisas. Diante dos resultados temos que a 1) autoridade dos adultos passou de extremamente valorizada a criticada e abandonada, sobretudo nas famílias de classe média; 2) a consistência das regras e normas caminha gradativamente para a ausência de constância no que é permitido e interdito; 3) a valorização da autonomia e bem-estar da criança vem aumentando. Essas mudanças despertam necessidades de se conhecer a realidade, as dificuldades e os recursos de que as famílias dispõem para se poder pensar em projetos que venham a promover o seu desenvolvimento e de seus membros.

As diferentes áreas do conhecimento mostram que são muitos os âmbitos de análise da família, isso se dá também pelo fato da mesma possuir características que se distinguem de qualquer outra instituição social o que também dificulta na construção de um conceito único de família. A família é o meio pelo qual as gerações mais velhas passam ao futuro sua cultura, hábitos, valores e padrões, e pela qual a sociedade evolui e adquiri novas formas por meio da interação das gerações.

Ao longo da história o conceito de ideal da criança mudou muito, bem como a função da infância. A noção presente de que a infância é um período especial da vida, que determina de certa forma como será o indivíduo adulto começou a surgir já no Renascimento, mas adquiriu algumas formas particulares influenciadas pelo pensamento sobre o humano nas diversas épocas. Acredita-se que ao longo do tempo sucederam-se diversas moralidades, cada qual priorizando certos valores, recusando ou aprovando formas mais ou menos extremas de se lidar com a afetividade, a concessão de liberdade/autonomia à criança, a consistência das práticas, a autoridade dos adultos em relação aos filhos e a busca de orientação. Entre os séculos XVIII e XIX tivemos as seguintes moralidades: a) religiosa, busca pela salvação da criança, valorização da obediência, limites estreitos e respeito as normas religiosas de conduta; b) higienista[1], busca pela sobrevivência e corpo sadio, existência de treinamentos intensivos para que a criança venha ser auto-disciplinada, busca pela alma pura; c) das necessidades naturais, tudo que é natural é bom, a criança é vista como capaz de se auto-determinar, “inteligente e de personalidade”, tolerância acentuada quanto às inadequações de comportamento; d) individualista e de curtição, criança como objeto de afeto, liberdade preconizada, abordagens psicológicas; e) moralidade mista, preocupada com o desenvolvimento (afetivo, social, emocional) saudável, liberdade, auto-realização e felicidade. Todas essas transformações não foram lineares nem se fizeram sem tropeços.

Na família brasileira bem como no processo de educação houve mudanças ao longo do século XX. a) cotidiano início do século XX: pouca diferença de idade entre filhos, convivência estreita e frequente entre as diversas gerações; espaço amplo; brincadeiras e atividades na classe média e trabalho com os adultos quando nas classes populares; certa distância entre o mundo; extremo respeito aos mais velhos; parcimônia no vestir e no alimentar; valores morais cultivados; educação voltada para o trabalho. b) cotidiano e atividades com as crianças de 1930 a 1980: as famílias, em especial da classe média, foram diminuindo em números de filhos; espaço físico limitado, pouca possibilidade de deslocamento natural na cidade; em 1930/1940 as famílias saíam em bloco para as atividades, em 1970 tem início o estabelecimento da divisão, cada um tem seu grupo e sai para fazer o que gosta. c) o caminho traçado pelos valores de 1930 a 1980: a mãe deve ser carinhosa e ter autoridade de controle; as famílias são grandes e um cuida do outro; a preocupação com a criança se faz quanto sua alimentação, emotividade, saúde e roupa; o adulto zela pela criança; o adulto procura aos poucos corrigir sem bater, questionamento da rigidez; preocupação de preparar a criança a “vir a ser”, escola cada vez mais cedo; mudanças do papel da mulher no lar; a autoridade dos adultos esmaece pouco a pouco; menos relacionamento profundo e surgimento de estados emotivos exacerbados; menor exigência, menor consistência das regras e normas até então absolutas; liberalização, inclusive na subjetividade; preocupação com o certo e o errado na educação e busca por marcos científico e por profissionais das áreas educacionais, psicológicas e sociais, diminuição do relacionamento pai-criança e busca por atividades que preencham o tempo.

Diversas mudanças se registram ao longo da história das gerações, e, mais difícil é julgar o que seria um processo ideal de infância. Para os mais novos a educação e tratamento que receberam foram rígidos, mas valorizam o nível médio de cuidado e afetividade que receberão e reconhecem que o ideal na educação das gerações futuras passa pela comunicação com os adultos e oferecimento de um conteúdo para pensarem os seus valores e código moral. A discussão sobre a negligência da educação das gerações mais novas envolve uma análise de todo o processo, tentando visualizar a real situação e as condições que as famílias dispõem, e analisar as formas alternativas de educação que as famílias lançam mão para poder cuidar de sua prole.


[1] Contexto das duas Grandes Guerras Mundiais e influência do movimento Médico-Higienista do final do séc. XIX.

Resenha do capítulo “A ideia da slow school: É hora de desacelerar a educação?”

por Harlon Romariz

 

HOLT, Maurice. A idéia da slow school: É hora de desacelerar a educação? In: STONE, Michael; BARLOW, Zenobia (Orgs.). Alfabetização ecológica: A educação das crianças para um mundo sustentável. São Paulo: Cultrix, 2006. p. 84-91.

Maurice Holt foi o primeiro diretor da Sheredes School, em Hertfordshire, dirigiu um programa de mestrado no Exeter University e foi diretor da American Academy, no Chipre. Em 1991 assumiu o cargo de professor de teoria curricular do curso de graduação da University of Colorado, em Dever. Foi co-editor do Journal of Curriculum and Supervision e é atualmente professor emérito. Reside em Oxford, no Reino Unido, onde vem focalizando as políticas de mudança curricular e a promoção do conceito de slow school.

Maurice Holt em 1978 publicou um livro chamado “The Common Curriculum: Its Structure and in the Comprehensive School” onde ele considera a importância dum “currículo abrangente que permite que a escolha seja feita entre grupos de matérias, me vez de entre disciplinas isoladas, fazendo uso de uma ampla variedade de estratégias de ensino”, livro esse que foi um marco inicial para o movimento de currículos integrados na Inglaterra. Essa visão decorre de um pensamento de Holt sobre a mecanização do processo educacional[1] e no que ele mesmo classifica como “camisa-de-força curricular”. Sua ênfase educacional procura desenvolver um ambiente curricular que focalize a qualidade em vez de simplesmente quantidade de informações adquiridas. O termo “slow school” decorre da metáfora que o autor faz dos “fast foods” onde as escolas que ele considera problemáticas seguiriam o “modelo hambúrguer de educação”.

Neste capítulo Holt apresenta inúmeros argumentos que defendem uma visão mais “desacelerada” da educação. Para ele tanto a sociedade como os próprios pais são orientados e incentivados pela conjuntura mercantilista a se “preocupar com o rendimento do filho, não com sua realização pessoal”. Holt sustenta uma visão mais humanista e prática da educação, visão essa que é constituída pelos ideais culturais e ambientais frutos duma influência descrita pelas percepções sistêmicas da realidade.

Para o teórico, acreditar numa educação mais válida para a sociedade, para o indivíduo e para o ambiente é pensar numa educação que se desvincule das exigências duma sociedade “fast” que desconsidera todo o arcabouço cultural construído ao longo de eras e que vive num frenético movimento em prol de acúmulos[2]. Esses imperativos se processam internamente no contexto educacional pela criação de “conteúdos específicos” e metas bem determinadas com padrões elevados de produção e resultado.

Para Holt, ao contrário desse atual percepção, a escola é um ambiente para os estudantes desenvolverem a mente, para ele “a educação e qualidades como criatividade, vitalidade, motivação, entusiasmo e compaixão são bens culturais” e que, portanto não podem entrar num escopo quantitativo e nunca poderão ser “pesados e medidos”, ou seja, não existe assim necessidade dum sistema educacional fechado baseado em conteúdos específicos e que dependesse diametralmente de resultados pontuais com a capacidade de desencadear um processo seletivo e classificatório.

Holt ainda afirma que apesar de toda essa valorização aos currículos específicos e quantitativos não existe “nenhum estudo que ampare essa visão e muitos ainda sugerem que isso não é educação”. Para ele a slow school, ao contrário, vem viabilizar uma enormidade de demandas societárias e ideais comunitários como a construção dos valores de respeito, civilidade, sustentabilidade e apreciação, além de criar um ambiente de maior aproveitamento do conhecimento. Na slow school “o aluno aprende um pouco de teoria sobre o que ele quer fazer, mas esse conhecimento está inserido na prática e é o que dá vida prática. A fast school, (…), é bem diferente – é como a fast food em que a teoria é separada da prática”. Ou seja, o processo da slow school apesar de ser “slow”, por se deter em diversas atividades práticas e socializações, apresenta resultados qualitativos sem iguais seguindo o velho ditado “a pressa é inimiga da perfeição”.

Um ponto de tensão então que surge sobre à slow school seria quanto as suas “prestações de contas”. O primeiro aspecto levantado em resposta seria a responsabilidade que os agentes e promotores da slow school teriam de ter. A confiança é um item fundamental nesse processo, mas precisa ser conquistada. Outra solução que acaba sendo uma característica inerente e marcante dessa proposta é uma avaliação que se detém sobre o processo. Ao contrário da fast school a avaliação tem a ver com um “relato” e é progressiva, para Holt a “slow school é uma narrativa, uma prática deliberada que orienta a narrativa da prestação de contas.

Holt finaliza argumentando que “o currículo não é então uma questão de aplicar respostas predeterminadas, mas de resolver esses problemas interativos de maneira a beneficiar todos os estudantes, usando o método de deliberação”.

Ver também

http://www.ecoliteracy.org/

http://www.ecoar.org.br/website/


[1] Em especial no EUA e Inglaterra.

[2] Entende-se por “acúmulos” todas tentativas de aglomerações da atual sociedade como dinheiro, recursos naturais, capitalizações, bens, entre centenas de outros.