Resenha do Livro: Aprender Antropologia

LAPLATINE, François. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2007.

               O livro Aprender Antropologia apresenta-se como um material de introdução à disciplina de Antropologia em especial para aqueles que iniciam na carreira acadêmica e que estão dispostos a empreender no fazer antropológico e na vontade de conhecer o homem como um todo e o homem em sua diversidade.

               François Laplatine nasceu em 11 de fevereiro de 1943, é um pesquisador francês com certo renome internacional, especialista em etnopsiquiatria ou etnopsicanálise. Laplatine tornou-se um antropólogo influente na contemporaneidade dentro de sua área, recebeu vários prêmios estabeleceu relações proveitosas com o Brasil, em particular com o nordeste.

               O livro Aprender Antropologia é organizado em Prefácio pela professora Maria Isaura, Introdução e Três Partes temáticas. Essas partes são: (I) Marcos para uma história do pensamento antropológico; (II) As principais tendências do pensamento antropológico contemporâneo; e (III) A especificidade da prática antropológica. O livro soma, junto com a Bibliografia, duzentas e uma páginas e surge como um material rico em classificações, apresentações, panoramas e discussões iniciais das principais características metodológicas e dos marcos históricos da Antropologia, e tenta também fazer um survey daquelas que seriam as Escolas do pensamento antropológico, que marcaram a trajetória da disciplina desde de seu embrião com as grandes viagens marítimas e com os primeiros antropólogos do período clássico até nossos dias da contemporaneidade.

               Nessa resenha será privilegiado um reconhecimento geral da obra, tentando, em monta maior, fazer uma apresentação do texto de Laplatine. Essa forma aqui adotada se insere mais como um caminho entre os quadros que são apresentados nas três partes, quadros esses, que no livro, são melhor apresentados pelo antropólogo francês. Aprender Antropologia passa primeiro por um reconhecimento dos quadros que a antropologia nos fornece como ciência muito mais profunda e subjetiva. Assim como os quadros dos artistas nos instigam e provocam, a antropologia com suas tensões e rupturas também nos provoca e se apresenta como uma “chave para a compreensão do homem” (p. 09).

                Na Introdução e na primeira parte do livro, Laplatine apresenta o campo de trabalho, bem como os marcos históricos que construíram e perpassaram a antropologia. O texto apresenta a antropologia como o “estudo do homem inteiro” e o “estudo do homem em sua diversidade”. Dentro dessa perspectiva de esgotar a totalidade do homem surgem as áreas da antropologia biológica, antropologia pré-histórica, antropologia linguística, antropologia psicológica e a mais recente antropologia social e cultural. A outra demanda seria o estudo do homem em suas diversas matizes e configurações culturais e sociais, marcadas por uma diversidade sem tamanho que acaba em sincronia com a percepção culturalista e relativista, além de conceder (por meio da comparação e análise) uma possibilidade de relação estrutural e até mesmo funcionalista das diversas sociedades e grupos ao longo de toda a terra, e no perpassar da história humana como um todo.

                Laplatine é muito feliz em tentar subsidiar a discussão do “aprender antropologia” a partir de seus marcos históricos. É importante reconhecer que a antropologia não surge como disciplina organizada ou programada, mas de um empreendimento de busca e compreensão dos outros povos, que inicialmente eram povos além mar e estranhos que saltavam aos olhos do então mundo ocidental europeu. A antropologia clássica é marcada por um enorme interesse pelos povos tradicionais e autóctones que causam intenso estranhamento, sendo chamados de selvagem. Ao longo do amadurecimento desse empreendimento começam a surgir questões de valor que buscavam responder se existia o bom selvagem e o mal civilizado (Las Casas) ou se o civilizado era bom, sendo mal o selvagem (Sepulvera). Outro elemento ou passo nesse processo de amadurecimento da antropologia foi o reconhecimento de que a etnografia, como método básico ou inerente, precisava ser organizada e sistematizada, o que se concretizou com Malinowski. Outro apontamento feito por Laplatine gira em torno do objeto da antropologia, que na sua fase clássica, eram os selvagens, ou primitivos, como pensava Durkheim (1977). A antropologia começa então a viver uma tensão em torno do objeto, que começa a desaparecer ou ser cada vez mais reduzido ou escasso ao longo da terra, forçando os antropólogos à busca por novos objetos e campos de trabalho que vão hoje desde o objeto clássico, até as manifestações urbanas, orais e de imagens.

                Esse amadurecimento da antropologia passa por um conjunto de negações, tensões e rupturas que discutem desde as percepções sobre o campo, objeto, método, recorte até sobre o uso da experiência pessoal do pesquisador e de sua neutralidade ou engajamento. Esse amadurecimento percorre todo o processo de diferenciações e aperfeiçoamentos que a disciplina sofreu internamente, o que levou à constituição das mais diversas escolas de pensamento antropológico.

                Aqui Laplatine exerce uma classificação das Escolas que é bastante convencionada, o que demonstra a existência de outras formas de organização. Ele optou por uma apresentação que segue uma linha histórica de construções, sucessões e convivência das diferentes escolas de pensamento antropológico. Laplatine também faz uma outra classificação, que se baseia nos três países mais eminentes na construção da discussão antropológica, que seria os EUA, com seu forte culturalismo, a Inglaterra com sua percepção funcionalista e a França, com antropólogos estruturalistas, como Lévi-Strauss, mas também sendo forte em uma percepção simbólica e representativa. Laplatine é muito feliz em pontuar as características dessas escolas (americana, inglesa/britânica e francesa) sem perder de vista o diálogo entre as mesmas, bem como procurou preservar e excitar as peculiaridades e tensões que marcaram a vida e obra dos autores e antropólogos mais representativos de cada Escola. No texto de Laplatine é possível perceber, por exemplo, as diferenças que Boas tem em relação ao funcionalismo de Durkheim. Ou como as percepções evolucionistas da escola americana leva em conta o quesito histórico de um povo, enquanto o inglês Radcliffe-Brown defende que “uma sociedade deve ser estudada em si, independentemente do seu passado” (p. 98). Outro exemplo seriam as percepções de Laplatine sobre como Marcel Maus em seu Ensaio sobre as Dádivas consegue ampliar o trabalho de Malinowski sobre os Trobriandeses, ou como se estabelece as diferenças entre o estruturalismo inglês e o estruturalismo francês, entre outros inúmeros exemplos desse diálogo promovido por Laplatine com esses grandes autores. O texto segue então pontuando as antropologias contemporâneas mais fortes, que sucederam o período clássico e aglutinaram conceitos oriundos da escola americana, inglesa e francesa, essas novas antropologias são: (I) Antropologia Simbólica, marcada pela criação de modelos, sentidos, e certa preocupação com o objeto e pela busca de indivíduos representativos de uma cultura, que sejam “sábios” em suas respostas; (II) Antropologia Social, grande mantenedora da forma funcionalista de interpretação social, marcada por uma ideia de sociologia comparada e normalizações; (III) Antropologia Cultural, essa que já é marcada pelo relativismo, culturalismo, coerência interna, essa que contrapõem natureza versos cultura, que traz à tona o conceito de “arco cultural” (p. 127) de Ruth Benedict e estabelece uma comunicação humana propriamente cultural; (IV) Antropologia Estruturalista tendo Lévi-Strauss como seu principal antropólogo, aqui surge o conceito de estruturas inconscientes, valorização da comparação entre as diversas culturas, totalidade, pluridisciplinaridade de Bateson, valorização do sistema sobre o sentido, valorização em si da cultura e busca pela lógica da cultura; (V) Antropologia Dinâmica, que ainda se define fazendo referência à Foucault, considera pressupostos à vista das relações de poder, levando em conta conceitos como aculturação, contatos culturais e choques culturais.

               Laplatine termina seu texto levando em consideração as rupturas e tensões que perpassaram a antropologia e que agora se configuram como aquilo que é a antropologia hoje, um empreendimento científico e humano que busca o conhecer sobre o outro e sobre si mesmo. Nesse empreendimento surgem várias dificuldades epistemológicas e metodológicas que se materializam nas seguintes discussões: (I) É o observador neutro em sua atividade etnográfica, etnológica e antropológica? Ou são a parcialidade e a experiência pessoal, elementos que devem fazer parte do trabalho? (II) É válido ou pelo menos possível estudar a totalidade de uma cultura? É possível levar tudo em conta? Ou o estudo do infinitamente pequeno e do cotidiano também são pontos à discussão? Como fica a pluridisciplinaridade? Onde fica o estudo da totalidade dentro do particular, dento do grupo? (III) Como estabelecer uma análise comparativa sem prejuízos dos objetos ou mutilação dos mesmos? (IV) Questões sobre as condições de produção social do discurso antropológico? Como o observador se vê como parte integrante do objeto? Discussões sobre a observação participante e de como a antropologia tem tido seu método utilizado por várias outras ciências? Que causas justificariam uma busca geral pela etnografia? Seria a busca pelo denso, pelo particular, pela proximidade, por dentro, uma nova tendência das ciências, ecoando princípios da antropologia (MAGNANI, 2002)? (V) Questões como o concreto e o abstrato, a superficialidade e a profundidade da pesquisa e do reconhecimento sobre o objeto, questões sobre o uso da literatura e as diferenças da narrativa literária e das narrativas etnográficas? São todas questões que perfazem os últimos apontamentos de Laplatine e que mostram que

“A aposta da antropologia é precisamente a de viver esse movimento ininterrupto. Não pretendo pessoalmente tê-lo conseguido profissionalmente. [...] A fixação sobre um polo em detrimento de outro, a rejeição dessas tensões que constituem contradições estimuladoras, as soluções de meio-termo e de compromisso [que] levam inelutavelmente a acabar com a especificidade da nossa disciplina – que ocupa um lugar todo particular nas ciências humanas – e a todas as espécies de desvios ideológicos. Demonstram a recusa ou a impossibilidade de enfrentar as dificuldades (que são também chances a ser aproveitadas e exploradas) inerentes à práticas da antropologia” (grifo nosso, p. 199).

               Laplatine tem sua tarefa de introdução ao aprender da antropologia que é qualificada pelo seu texto leve, fácil e reflexivo. Ele parece estar ao longo de seu texto dialogando com seus interlocutores de uma forma instrutiva, paciente, colocando-se como um guia ou tutor daqueles que empreendem na antropologia, isso se evidencia pelo uso da primeira pessoa do singular e do plural e pela continuidade não orgânica de seu raciocínio. Cabe, não obstante, uma ressalva ao texto de Laplatine, que seria a ausência de regras para apresentação das citações, referências e outras particularidades que ficam somente na organização gráfica e metodológica do texto em si, além de algumas frases truncadas e de outras que carecem de advérbios e elementos de ligação textual; excetuando esses únicos detalhes, o livro é muito bem recomendado para aqueles que desejam Aprender Antropologia.

REFERÊNCIAS

DURKHEIM, Émile. A divisão do trabalho social. 2. ed. Lisboa: Editorial Presença, 1977. v. I.

MAGNANI, José Guilherme Cantor. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 17, p. 11-29. 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092002000200002&nrm=iso&gt;.

Resenha do livro “Émile Durkheim: Sociologia”

RODRIGUES, José Albertino (Org.). Émile Durkheim: sociologia. 3. ed. São Paulo: Ática, 1984

               O professor José Albertino Rodrigues sob a coordenação maior de Florestan Fernandes organizou esse livro no intuito de oferecer à academia sociológica brasileira um material de introdução sobre a vida e obra de Émile Durkheim. Rodrigues foi professor de sociologia da Universidade Federal de São Carlos, faleceu em 1992 aos 64 anos, ele foi considerado como um dos pilares das ciências humanas no Brasil por seu forte empenho na institucionalização do ensino de sociologia nas Universidades o que lhe deu muito prestígio (NOGUEIRA, 1993), sendo homenageado após sua morte pelos alunos de ciências sociais da UFSCar que lhe fizeram permanente referência por meio do Centro Acadêmico José Albertino Rodrigues.

                O livro traz uma introdução de autoria de Rodrigues e passa então a apresentar diversos textos próprios de Durkheim. Partes essas que foram extraídas dos livros: A Ciência Social e a Ação, As Regras do Método Sociológico, Sociologia e Filosofia, O Suicídio, Jornal Sociológico e das Formas Elementares da Vida Religiosa. Esses textos de Durkheim foram organizados em três partes: (I) Objeto e Método, (II) Divisão do Trabalho e Suicídio e (III) Religião e Conhecimento. Cada uma dessas partes são subdivididas em itens que nada mais são do que recortes da obra do sociólogo francês.

                Rodrigues vai organizar seu livro a partir de duas demandas. A primeira diz respeito ao fato de que a sociologia no Brasil ainda estava se organizando como disciplina nos meados do século XX (FERREIRA, 2003). Essas circunstâncias iniciais eram caracterizadas por uma carência bibliográfica e instrumental, principalmente para os iniciantes, e por isso a necessidade de popularizar os textos do próprio Durkheim e de outros autores clássicos. Essa necessidade leva Florestan Fernandes a organizar a coleção “Grandes Cientistas Sociais” e Rodrigues toma parte nesse projeto ao apresentar Émile Durkheim de uma forma introdutória, porém não menos importante. A segunda demanda respeitada por Rodrigues tem haver com sua própria concepção e entendimento sobre Durkheim e sua obra. Esse entendimento de Rodrigues sobre o fundador da sociologia está bem apresentado na Introdução do livro, mais especificamente no que ele chama de “teoria sociológica durkheimiana” ou “esquema teórico” (1984, p. 30).

                Rodrigues reconhece que a teoria sociológica durkheimiana “corresponde a uma certa violentação” do pensamento de Durkheim, mas que é justificada quando num recorte para fins didáticos (1984, p. 30). O esquema apresentado por Rodrigues parte de um fundamento objetivo sobre Durkheim que traz à tona os conceitos de morfologia social e fisiologia social. Durkheim recebeu influência do pensamento organicista do século XIX levando-o a considerar os fatos sociais e as estruturas de funcionamento sociais como a parte fisiológica da sociedade; e que as caracterizações reveladas pelos indivíduos, grupos e instituições, as manifestações culturais, práticas e realidades fariam parte da morfologia social, morfologia essa que era de menor importância para Durkheim (2012, p. 39-40), mas ocupa um espaço notável na organização de Rodrigues.

                A partir dessa teoria Rodrigues oferece sua visão que se baseia na existência de quatro núcleos primordiais da produção durkheimiana que se organizam entre os conceitos de fisiologia e morfologia social. O primeiro núcleo seria a religião, “vinculada às representações coletivas” (RODRIGUES, 1984, p. 32) e que seria responsável para compor a própria concepção de mundo, sendo parte integrante da fisiologia social. O segundo núcleo, também fisiológico, seria a moral que representa boa parte da preocupação durkheimiana pelo fato dela estar vinculada a “consciência coletiva” e que a moral seria um fato social fundamental por que se impõem aos indivíduos por intermédio da coerção social. O terceiro núcleo situa-se na compreensão da divisão do trabalho que seria a manifestação prática (ou morfológica) do conceito de solidariedade social, ou cola-social que garante que indivíduos diferentes continuem unidos em sociedade. O quarto e último núcleo diz respeito ao suicídio que leva em consideração o comportamento individualista, o grupal e a importância das normas sociais e da ideia de que o social transcende o indivíduo. São esses quatro núcleos que levam Rodrigues à escolha de determinados textos de Durkheim em detrimento de outros. Ou seja, a organização do livro, no sentido de seu conteúdo, parte do pressuposto da existência desses quatro núcleos. É conveniente ressaltar que esses núcleos não aparecem de forma ordenada ou sequenciada dentro da organização capitular do livro de Rodrigues, mas eles permeiam quase todo o livro.

                Talvez a grande contribuição legada por Durkheim esteja no fato de que ele foi o primeiro a criar definitivamente um método para a sociologia. O próprio termo sociologia surge de forma mas autônoma a partir da introdução dessa cadeira na Universidade de Sorbonne, introdução essa que foi capitaneada por Durkheim em 1910. Com as Regras do Método Sociológico o sociólogo francês torna-se o fundador dessa ciência em termos práticos. Pois é a partir dele que a Sociologia define, de forma concreta, qual o seu Objeto: fato social; e qual o Método: observação, distinção, comparação, constituição, explicação e administração das evidências (DURKHEIM, 2012). Apesar de muitos considerarem O Suicídio como a obra prima de Durkheim, é muito importante lembrar que tal livro é na verdade a materialização das suas descobertas anteriores sobre o fato social e sobre o método sociológico. As grandiosas e inovadoras conclusões apresentadas sobre o suicídio são uma exemplificação de como a sociologia é capaz de produzir conhecimento independente, a partir dos dois constituintes básicos de qualquer ciência: o Objeto e o Método. E é por isso que o que há de mais valioso nas obras de Durkheim é justamente a descoberta desses dois constituintes ou elementos básicos, sem eles nenhuma outra obra de Durkheim viria a existência, nem mesmo O Suicídio. E aqui talvez consista a maior falta de Rodrigues na sua organização, uma vez que ele dedica muito pouco espaço para o que há de primordial dentro da contribuição Durkheimiana: o Objeto e o Método da Sociologia e sua inauguração como ciência. Nada mais há do que um único texto de Durkheim sobre o Objeto e nenhum texto foi apresentado que discuta o Método na sua forma mais geral, como apresentada em As Regras do Método Sociológico.

                Rodrigues foi muito feliz na organização de seu livro sobre Émile Durkheim. No entanto, é possível pontuar outras três limitações da obra. Logo de início é clara a percepção de que a organização de conteúdo do livro se baseou no esquema teórico proposto por Rodrigues (1984, p. 31) e que portanto já é uma visão particularizada ou tendenciosa sobre Durkheim, não que haja total prejuízo da obra por isso, mas pela ausência de uma (I) contextualização mais recente sobre as produções atuais a partir de Durkheim, (II) de críticas sobre Durkheim, e (III) de uma organização que também levasse em conta o progresso metodológico de Durkheim ao longo e sua vida.

                O próprio Rodrigues afirma que a obra de Durkheim “é um exemplo de obra imperecível, aberta não a reformulações, mas a continuidades” (1984, p.33), no entanto faltou apresentar, mesmo que de forma breve, quais os estudos ou discussões que tem dado continuidades ao pensamento do sociólogo francês, não que houvesse necessidade essencial nisso, mas seria um subsídio adicional importante para quem deseja se aprofundar no autor. Segundo, não há nada além do que poucas referências à alguns críticos da obra de Durkheim, falta algo mais explicativo ou elucidativo que pudesse dar ao iniciante um contraponto importante para compreender Durkheim na disciplina. Terceiro, muitos acadêmicos e sociólogos compartilham da ideia de progresso metodológico em Durkheim. As primeiras obras dele são marcadas por uma visão organicista muito forte, o que é visto em A Divisão do Trabalho Social e Elementos de Sociologia. Com a publicação de As Regras do Método Sociológico, Durkheim finalmente inaugura a sociologia e começa a tê-la como ciência, de fato. A Proibição do Incesto e suas Origens e O Suicídio são obras que materializam essa percepção sociológica como ciência, utilizando inclusive metodologia quantitativa com cruzamento avançado de dados. Em Formas Elementares da Vida Religiosa (1912), já no final de sua produção, Durkheim agora constrói o que podemos chamar de um ensaio antropológico, utilizando da etnografia como método de pesquisa, o que marca a última fase durkheimiana em relação aos métodos de pesquisa. Essa percepção sobre as fases metodológicas de Durkheim também está ausente no livro de Rodrigues.

A despeito dessas três ausências ou elementos faltantes, o livro é recomendável, principalmente para os ainda estudantes das ciências humanas e para todos aqueles que tem um interesse particular sobre o autor francês, vida e obra.

 

REFERÊNCIAS

 DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: EDIPRO, 2012.

FERREIRA, Delson. Manual de sociologia: dos clássicos à sociedade da informação. 2 ed. São Paulo: Atlas, 2003.

NOGUEIRA, Oracy. Homenagem: José Albertino Rosário Rodrigues. Tempo Social: Revista de Sociologia da USP, São Paulo, v. 1, n. 1. 1993.

Resumo do Capítulo: Onde surgiu e como se desenvolveu a democracia? Uma breve história

DAHAL, Robert. Onde surgiu e como se desenvolveu a democracia? Uma breve história. In. Sobre a democracia. Brasília: Editora UNB, 2001, p. 17-35.

      O capítulo dois de “Sobre a Democracia” vem para tentar entender, de maneira bem breve e elementar, como se deu o desenvolvimento daquilo que conhecemos de “democracia ou república”. Robert Dahal, usa um pequeno apanhado histórico, começando desde das formas primitivas de organização política, passando pelas cidades-estados gregas e por Roma, até chegar à Inglaterra e Estados Unidos. Nesse começo o autor procura defender a existência da “lógica da igualdade” e demonstra como as organizações na Grécia e Roma passaram por inúmeras modificações, mas nunca foram de fato organizações plenamente democráticas, e muito menos representativas.

     Ao longo do texto ele vai mostrar vários outros exemplos de organizações políticas, no norte da Europa, cita a região nórdica, anglo e consegue juntar informações suficientes para argumentar que as manifestações de “governos populares” nunca foram de fato democráticas. Ele levanta pelo menos quatro argumentos nesse sentido: (I) mesmo nas formas mais complexas e em países mais auspiciosos, a desigualdade sempre existiu, e fora sempre uma limitação muito forte; (II) onde existiam parlamentos ou assembleias, essas nunca eram suficientemente poderosas para fazer frente as monarquias; (III) os representantes do “povo”, não passavam de representantes de uma única classe, a dos homens-livres. Existia uma enorme quantidade de escravos, subordinados e servos que nunca tomaram decisões, mesmo sendo um grupo muito significativo em termos de números; (IV) os conceitos políticos eram poucos conhecidos, e existiam fortes limitações educacionais para que todos pudessem participar, além disso a liberdade de expressão sempre foi muito tolhida.

     Finalmente o autor vai chamar atenção para o fato de que a democracia é uma forma de organização política que não possui “forças históricas” suficientes que garantam que a mesma sobreviverá ou sempre ascenderá. A história mostra, muito pelo contrário, que há possibilidade de queda (como na idade média) ou mudança, de um sistema mais “popular” por outro mais autoritário. Como o próprio autor diz: “aparentemente, a democracia é um tantinho incerta”, e que vai depender muito das construções e ações que ocorrem no presente.

Resumo do artigo: O calcanhar metodológico da ciência política no Brasil.

SOARES, Gláucio Ary Dilllon. O calcanhar metodológico da ciência política no Brasil. Sociologia, Problemas e Práticas, n. 48, p. 27-52. 2005.

                Para o autor, a Ciência Política enfrenta um período difícil, em especial no Brasil. Essa dificuldade estaria relacionada a falta de habilidade por parte de muitos professores e pesquisadores em utilizar com proficiência os métodos científicos, sejam eles quantitativos ou qualitativos. Sua Abordagem inicia na tentativa de valorar os métodos quantitativos diante de uma tendência de valorização das formas qualitativas de pesquisar que se mostra muito presente nas pesquisas das ciências humanas atuais.

Ele utiliza pesquisas de vários autores dentre eles Valle Silva, Maria Helena, Marcelo Coutinho, Werneck Vianna, entre outros que analisaram a presença do método quantitativo em vários periódicos científicos, nacionais e de outros países. Esses dados são utilizados pelo autor para demonstrar a preferência atual pelos métodos qualitativos e aproveita para criticar fortemente os argumentos pelo qual muitos fazem rejeição a qualquer metodologia quantitativa. O autor dá início então há uma série de críticas e posicionamentos que tenta convencer que a maior parte das pesquisas realizadas (em ciência política e sociologia) são construídas sem um “rigor metodológico” ou que demonstre fina habilidade no trato com dados, seja da forma quantitativa ou qualitativa. O autor argumenta também a necessidade de não-oposição quali-quanti e que o possível uso de ambos pode enriquecer ainda mais as pesquisas e que os avanços tecnológicos atuais permitem ao pesquisador trabalhos com um montante ou massa de dados bem maior. Ele propõe uma espécie de integração do método qualitativo ao quantitativo onde as novas técnicas quantitativas seriam utilizadas no processamento de dados qualitativos, esses últimos, ótimos para gerar hipóteses.

O autor aproveita o assunto e tece comentários sobre o que ele chama de “colonialismo teórico” fazendo referência ao grande número de pesquisadores americanos e europeus que são estudados no Brasil em relação aos pesquisadores da América Latina e de países do Terceiro Mundo. Também demonstra o perfil de vários periódicos internacionais e discute as relações entre exigências, taxas de rejeição e impactos na comunidade científica característico de vários periódicos internacionais.

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Resumo do capítulo: Sociologia e Sociedade Industrial

FORACHI, Marialice; MARTINS, José de Souza. Sociologia e Sociedade: leituras de introdução à Sociologia. 21. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1994.

            Diante da nova ordem econômica, verificada com as revoluções industriais, percebe-se que a sociologia desempenha um papel preponderante no contexto da análise, estudo e esclarecimentos quanto aos aspectos de uma sociedade industrial.

Com o passar do tempo, e por meio das mudanças históricas, que ocorrem com a suplantação das ideias, percebe-se que existe uma extrema e positiva necessidade de adaptação, contextualização e produção ideológica que possa refletir as novas, características, formas e parâmetros do mundo moderno e/ou pós-moderno.

A sociedade industrial bem como a sociologia se originaram concomitantemente, como faces de uma mesma folha. A sociedade já no seu estágio complexo produz a sociologia, assim como essa última caracteriza e tenta conceituar seu objeto de estudo. O início do estudo sociológico está forçadamente relacionado com o período grego, com os primeiros filósofos, que apesar de terem percepções de cunho social, não objetivaram e nem sistematizaram nenhum processo, problema ou estrutura social. A sociologia então, veio tomar passos mais consistentes a partir do século XIX, com trabalhos bem mais consolidados e estabilizados quanto à investigação científica.

Outra questão marcante na sociologia se encontra no estudo das desigualdades sociais, que está totalmente aliado a idéia de sociedade industrial, uma vez que em oposição ao absolutismo, o movimento liberal prometera um fim às diferenças econômicas entres os indivíduos, o que de fato não ocorreu.  Esse processo de estabelecimento do capitalismo e suas idéias liberais ocorreram com o proceder das revoluções industriais, e a sociologia acompanhou, a priori, de maneira pusilânime os aspectos da sociedade ou do bojo social. Contudo, com o fortalecimento do sistema, as transformações sociais de ordem econômica e política surgiram de forma nova, forte, nítida e marcante levando à um contraste e desigualdades não vistas anteriormente e ainda sob o argumento falacioso que vencera o absolutismo. Essas transformações e nova formatação das desigualdades deram suporte a formulação de conceitos, estudos e trabalhos que puderam esclarecer de maneira mais satisfatória tais processos. A sociedade industrial carrega consigo outros aspectos e problemas impreteríveis para uma análise mais consistente. Dentre esses aspectos se destaca o (i) conceito de sociedade de consumo, caracterizada pela contínua dependência do consumo, baseada no princípio individualista do “ter”; (ii) o problema da comunicação de massa, que segundo algumas concepções seria fruto de uma ação de um grupo ideologicamente orientado pelo crescimento e desenvolvimento do capital, propagandas, joguetes e peças publicitárias construídas com fins exclusivamente mercadológicos.

Outro problema seria o individualismo produzido como condição dentro de uma sociedade de consumo, essa estimulada pela era industrial, esse problema procura a valorização do “ter” em detrimento à construção do “ser”, no entanto essa situação também tem um lado positivo quando colocada a questão da maior mobilidade social, alcançada por consequência de esforço individual ou condição previamente conquistada.

            A sociologia ao olhar a sociedade de consumo estabeleceu objetivos gerais que tentam explicitar a forma funcional e estrutural, assim como caracterizar e prevê os efeitos, procurando constantemente pela melhoria e pela justiça convencionada. No entanto, o conceito de sociedade industrial tem sido concebido de maneira generalizada, sem considerar os aspectos particulares de cada economia, suas funções e determinantes mais efetivos. Ao considerar que as diversas economias são semelhantes a sociologia demonstra seguir uma tendência científica mais naturalista, contudo, com a complexidade das comunidades atuais os sociólogos começam a serem impelidos à particularização e personalização do estudo, abrindo espaço para a antropologia e psicologia social.

Outro aspecto a considerar seria a carência de um marco teórico que fosse utilizado como aporte, o que se verifica atualmente é uma crescente “acumulação, suspeita e tendenciosa” de percepções e supostas teorias. Alguns sociólogos afirmam ser a sociedade de consumo, com todas as suas características, como um processo resultante da “dominação das classes”, da orientação efetivada pelos dos burgueses, por aqueles das camadas sociais mais “elevadas”, pelos os burocratas e técnicos da base formadora da sociedade industrial. Essa orientação estaria se materializando em diversos momentos e espaços, dentre esses encontram-se as ações de comunicação de massa que tentam descartar a imagem de “dominante”.

A sociologia por muito tempo foi observada como um simples estudo de casos sociais, hoje é reconhecida como ciência; apesar do seus métodos abstratos e do seu objeto que é de natureza humana, e tem auxiliado na formação e propagação de valores convencionados ou não na sociedade.

Resumo do capítulo: A Construção do Pensamento Sociológico no Brasil

FERREIRA, Delson. Manual de Sociologia: dos clássicos à sociedade da informação. 2 ed. São Paulo: Atlas, 2003.

 

            O fim do segundo período monárquico brasileiro deu início a uma nova configuração social e política, processo acompanhado da embrionária Segunda Revolução Industrial Européia. O Brasil progressivamente se inseria no contexto urbano de desenvolvimento e vivência, aumentado o consciente populacional e a participação política da população. Nesse período houve também um exponencial crescimento na produção de café que gerou capital suficiente para se iniciar investimentos na carente e primária infra-estrutura brasileira. O Brasil começava então a crescer e por consequência, foi influenciado pela conjuntura social mundial da  época.

           A sociologia no Brasil começou seu primado desenvolvimento no século XX e alguns críticos brasileiros iniciaram estudos em assuntos como a concepção positivista, a teoria do fato social de Durkheim, aspectos do pensamento do etnógrafo de Ratzel, e outros. Dentre os primeiros estudiosos destacamos: Sílvio Romero, Paulo Egídio, Euclides da Cunha e Oliveira Viana. Este período foi marcado por fortes contribuições recebidas pelo Brasil que vinham ao encontro de uma sociedade nacionalista, e agora, intelectual somando-se a isso o estabelecimento da classe burguesa brasileira. Esses fatores foram a pressão comercial britânica que pôs fim ao tráfico de escravos, aumentando o fluxo migratório europeu para o Brasil; a proclamação da república com bases positivistas; e reformas que modificavam as conjunturas políticas e sociais mais latentes.

           Com o estabelecimento da classe burguesa brasileira algumas medidas ou projetos ideológicos foram surgindo, como, a modernização nacional, as medidas protecionistas, e a procura por uma identidade cultural nacional, entre outros exemplos. O pensamento sociológico no Brasil foi oriundo de uma síntese dessas circunstâncias com os estudos históricos, literários e reflexão sociológica, as três primeiras décadas do século XIX foram palcos para o pensamento sociológico embrionário.

            As diversas reformas no ensino brasileiro foram as portas para introdução da disciplina de sociologia, de formação clássica no ensino básico, o que foi sequenciado posteriormente na formação universitária. Alguns estudiosos tiveram suas formações em outros países e introduziram no Brasil suas idéias, dentre esses se destacam: Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Fernando Azevedo e Sérgio Buarque de Holanda. Na década de 1930 Getúlio Vargas, imbuído de uma concepção burguesa, tentou fortalecer o poder do executivo, a fim de modernizar o processo capitalista no Brasil, o que levou à fundação dos primeiros cursos superiores voltados para a área sociológica. Esses cursos contaram com a participação maciça de professores estrangeiros, em especial europeus, levando a formação da primeira geração de sociólogos nos anos 30 e 40, dando continuidade em posteriores gerações. Esse passo fundamental constituiu a sociologia brasileira carecendo apenas de uma consolidação teórico-científica.

           Na segunda metade do século XX, partícipe da primeira geração de sociólogos brasileiros, destaca-se Florestan Fernandes, que defendia que sociologia havia tomado duas macros vertentes: (I) econômica, voltada para o estudo do desenvolvimento; e (II) sociológica, que se dividiu em experiência paulista e visão nacionalista. Florestan Fernandes se dedicou a aspectos estruturais, tais como formação das classes sociais, advento e efeitos do capitalismo e evolução histórica da sociedade brasileira. Florestan foi um sociólogo dedicado e não se eximiu de elaborar um rigoroso trabalho teórico-científico, e apesar desta ocupação, não deixava de se envolver na prática política e na militância. Ele recebeu influência de Marx, Lênin, Dobb, Baran e Sweezy, contudo a maneira como absorvia essas influências passava por um crivo pessoal e meticuloso. A sociologia em Florestan se dava a partir de uma análise estrutural da sociedade, sendo seu objetivo nuclear a dominação burguesa e as alternativas de emancipação a essa dominação. Para Florestan, segundo Francisco de Oliveira, os estágios de desenvolvimento convencionados pela sociedade não existiam, mas sim uma forma de objetivação do capitalismo. Para ele o período colonial, marcada pela dependência do capital estrangeiro, não seria uma fase ou estágio, mas sim uma forma de agir, de como se objetiva o processo. Ele acreditava que a introdução do capital no Brasil se deu de maneira abrupta e não civilizatória, para ele era necessário a manutenção do movimento social, o que modernizaria o sistema social e tornaria a sociedade mais participativa e beneficiária nos/dos processo econômicos e sociais.

Resumo do capítulo: O que é uma instituição social?

BERGER, Peter; BERGER, Brigitte. O que é uma instituição social? IN: FORACCHI, Marialice; MARTINS, José de Souza (ORG.). Sociologia e Sociedade: leituras de introdução à Sociologia. 21 ed. Rio de Janeiro: LTC, 1994.

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AdO conceito de instituição social é oriundo da percepção de que a sociedade é institucionalizada pelos moldes de uma Convenção Social. Instituições são criadas em resultado dos naturais contratos sociais que os indivíduos estabelecem entre si, tornando-se elas alheias a vontade particular e sendo necessárias e obrigatórias a todos os entes sociais.

AdAlguns aspectos particulares norteiam de maneira mais latente o conceito de instituições sociais: a obrigatoriedade, o reconhecimento legal e as características fundamentais. Que geram uma visão comum quanto as formas das instituições sociais, estas que a priori são exatamente órgãos públicos, o Estado, a economia, a família, o sistema educacional, entre diversas outras que apresentam geralmente um componente físico visível ou outro aspecto mais “palpável”. Entretanto, o conceito de instituição social, quando tomado de uma visão menos unilateral é solícito a percepção de uma instituição fundamental: a linguagem.

Ad A linguagem seria a primeira instituição com que o infante teria contato, muito antes mesmo de estabelecer vínculos psicossociais com a família. É unicamente por meio da linguagem que se estabelece inúmeras relações, nas suas mais diversas formas, com as quais a criança tem contato com o mundo. Suas primeiras percepções ocorrem senão pela linguagem, e passa a percebe o mundo transmitido por meio dessa nata e potencial capacidade.

Ad A linguagem também seria a instituição primordial para concretização, consolidação e significação da realidade. O mundo real é objetivado e os objetos são perfeitamente distinguidos e identificados tornando-os cognoscíveis. É por meio da linguagem que se estabelece as relações de poder e se transmite os moldes da cultura, os papéis são apresentados e estabelecidos, e inicia-se o processo de socialização na tomada contínua dos nichos alheios. Por fim a linguagem tem uma capacidade de especificar e fixar a idéia dos papéis e possibilita construções racionais, guiadas e independentes. A mesma linguagem convencionada assim como uma instituição, é a garantia de justificação para o estabelecimento de poderes, papéis e relações de poder, além de ser o meio pela qual se orienta a sociedade em cooperação ao que é construído ou estabelecido, ou pelo menos, dar possibilidade de regimentar determinadas questões em benefício de grupos ou do todo social.

Ad As características fundamentais das instituições são sistematicamente: (I) a exterioridade: pois todas as instituições são estabelecidas pelo corpo social, independente da particularidade dos indivíduos, as instituições são exteriores à vontade da pessoa única, e tal característica se aplica a linguagem, uma vez que a mesma é pré-estabelecida e exterior a vontade do homem, em especial da criança, que a apreende sem questionamento. (II) a objetividade: todas as instituições são oriundas de um processo impulsionado por uma necessidade, por isso são todas dotadas de grande objetividade. A sociedade só aceita determinada instituição quando propõe algo importante e objetivo, a linguagem possui o objetivo maior de proporcionar a Comunicação e diversos outros fatores dependentes desse processo que em nenhuma situação é rejeitado pelo infante; (III) a coercitividade: para efetivação da instituição social é necessária que a mesma tenha força coercitiva, sua aceitação social lhe confere tal característica, impondo a todos o respeito ou auxílio a determinada instituição. Da mesma forma a linguagem, que é aceita e dominada pelo meio e imposta ao novo ser social. Além disso a sociedade desenvolve diversas categorias sociais, cada uma delas com um sub-padrão de linguagem, coagindo o indivíduo a usar a linguagem conforme o ambiente e situação, essa coação geralmente não resulta em punição física ou repressão sistematizada, mas desconforto moral. (IV) a autoridade moral: é algo implícito das instituições sociais, todas possuem uma autoridade que as justificam. Conforme a necessidade e origem, essa autoridade pode variar em graus, poder institucional e/ou poder de coerção, e o enquadramento dos indivíduos pode ocorrer de diversas maneiras e formas. Tudo em atendimento à autoridade pré-estabelecida. A linguagem também possui autoridade moral, seus usuários geralmente criam vínculos pessoais, culturais e comerciais a ela, conferindo-lhe autoridade, sendo necessária respeitá-la incondicionalmente. Por fim, verifica-se a (V) historicidade: o fato de ser exterior ao indivíduo indica esse fator fundamentalmente comum nas instituições. Todas possuem história, precedem no tempo, assim como a linguagem, que como rio flui por meio das épocas, sofre dinâmicas, mas permanece se impondo como instituição pétrea, e é por isso para Karl Kraus a linguagem é a “habitação do espírito”.

Resumo do artigo: O que mudou na Família Brasileira? (Da colônia à atualidade)

SAMARA, E. M. O que mudou na Família Brasileira? (Da colônia à atualidade). Psicologia USP, v. 13, n. 2, p. 27-48, 2002.

 

            Os estudiosos da família brasileira sempre concluíram um modelo segundo a obra de Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala (Freyre, 1987). Mas essa imagem de família extensa e patriarcal nem sempre foi o único modelo real, ou o mais dominante no Brasil.

            Os estudos acadêmicos recentes têm mostrado um quadro da família divergente do tradicional, e que nos tempos contemporâneos esse quadro pode ter modificado mais fortemente. Temos realmente uma nova família no Brasil, neste momento? A complexidade dessa pergunta requer um estudo mais firme e histórico.

            Do primeiro Censo Geral do Brasil (1872) até o censo de 1996 se verificou um aumento na porcentagem de mulheres (de 48,40% para 50,79%), em algumas áreas urbanas a população feminina é dominante. A participação populacional das mulheres na sociedade brasileira sempre foi muito marcante, bem como sua participação nos postos de trabalhos e na liderança de várias famílias, predominantemente nas áreas urbanas e em regiões de grande exponencial econômico. Em 1995, por exemplo, as mulheres representavam 39,88% do número total de indivíduos com ocupações formais.

            Apesar da grande participação das mulheres, tanto na liderança das famílias (principalmente das famílias pobres), quanto na ocupação dos postos de trabalhos até desde muito tempo atrás (em 1872 as mulheres representavam 26,35% da força de trabalho), elas nem sempre gozaram plenamente dos seus direitos políticos, e os homens por muito tempo eram juridicamente declarados como responsáveis e líderes para vários assuntos.

            Outro quadro revelado pelas estatísticas e que contradizem Freyre (1987), á quanto a forma das famílias, que segundo ele eram majoritariamente extensa e patriarcal. Em 1836 as famílias nucleares representavam 35,4%, contrapondo 1,2% de famílias extensas, e em 1991 as famílias nucleares e compostas juntas representavam 79,27%.

            O que se tem visto pelas estatísticas é que as famílias variam conforme suas realidades culturais, sociais e econômicas ao redor. E que uma visão uniforme da composição e prática familiar brasileira, mesmo em relação ao passado, está longe de representar a realidade, uma vez que ela é complexa e multifacetada. O grande desafio da academia hoje é continuar os estudos a cerca da família, e ultrapassar os resultados estritamente históricos e estatísticos.

harlon.romariz@advir.com

Referências Complementares

BARICKMAN, Bert Jude. Um contraponto baiano. São Paulo: Civilização Brasileira, 2003.

PAIVA, Eduardo França. Escravos e libertos nas Minas Gerais do Século XVIII. São Paulo: Annablume, 1995.

Resumo do Capítulo “Expectativas paternas e experiências dos estudantes num internato: referências para o desenvolvimento de uma prática pedagógica mais ampla”

SILVA, Demóstenes Neves da; RABINOVICH, Elaine Pedreira. Expectativas paternas e experiências dos estudantes num internato: referências para o desenvolvimento de uma prática pedagógica mais ampla. In: MOREIRA; CARVALHO (Coord.). Família e educação. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 140-163.

 harlon.romariz@advir.com

      Este texto é parte de um estudo mais amplo que procurou compreender as trajetórias de jovens num internato, localizado em Cachoeira-Ba, denominado Instituto Adventista de Ensino do Nordeste (IAENE).

      O internato surge como instituição educacional no seio europeu a partir da concepção pedagógica de que a formação do homem ideal poderia ser obtida com a separação da criança da sociedade, visando o preparo acadêmico e moral do educando. Existem argumentos a favor e contra o sistema de internato, principalmente contra os internatos que seguem modelos mais remotos e /ou tradicionais.

   Bronfenbrenner considera as capacidades humanas e suas realizações significativamente dependentes do contexto social e institucional mais amplo. Chamou atenção para a interação de vários níveis, os quais influenciam e são influenciados por fatores presentes e ausentes. Ele apresenta quatro elementos desenvolvimentais: o processo, a pessoa, o contexto e o tempo.

    As perspectivas e expectativas paternas encontradas nos questionários e nas conversas informais veem o internato como: (I) compensação, sugerindo que as famílias não conseguem suprir todas as necessidades educacionais e não se acham capazes de transmitir aos filhos os valores que julgam necessários; (II) fator de crescimento do filho, o fato dos alunos estarem expostos a diversas decisões e situações os prepararia para a vida, assim o internato teria a vantagem de tornar os filhos em pessoas “responsáveis” e “independentes”, (III) além do mais os pais esperam que o internato supra as necessidades dos filhos, sendo diligente e cuidadoso para com eles; (IV) desenvolvimento acadêmico, o fato de o aluno possuir diversos recursos como sala de estudo e horários programados ou uma estrutura rica (como a biblioteca) em equipamentos leva os pais a terem mais essa expectativa.

      As perspectivas dos internos foram qualificadas por meio do método de fotografias e grupo focal. Algumas dessas perspectivas ou aquilo que alunos consideraram condições e oportunidades favoráveis à experiência no internato foram: as condições de estudo, o trabalho, o desenvolvimento pessoal, aprender a se relacionar, trabalhar duro, ser competente e cumprir regras.

     Existem os fatores que não satisfazem aos alunos internos e que podem produzir diversas trajetórias dependendo das condições biopsicológicas do indivíduo. (I) A limitação do espaço livre, (II) as gestões autocráticas, (III) ausência de diálogo aberto e franco, (IV) e a exclusão da família e dos alunos na tomada de decisão que interfere no grupo, são esses os fatores negativos. As trajetórias decorrentes que podem possivelmente serem tomadas pelos filhos-alunos e que estão na perspectiva de Bronfenbrenner, são: sentimento raiva, agressividade, transgressão, depressão (no sentido de auto-anulação), paralisia (acomodação), fuga ou abandono e demonstração aparente de obediência. Essa reação pode se dar com/nos (os) diversos níveis (microssistemas, mesossistemas, macrossistema) pela qual encontrasse o indivíduo.

   Assim é possível referenciar o desenvolvimento de uma prática pedagógica mais ampla, primeiramente para o contexto do internato, mas também com outras aplicações indiretas. É necessário avaliar as expectativas paternas e dos estudantes, além de tentar manter ao máximo uma estrutura que garantam a satisfação de suas necessidades e vontades. Sem a presença dos fatores promotores da tensão.

 harlon.romariz@advir.com

Links sobre o assunto:

“Conheça Summerhill, a escola em que o aluno pode (quase) tudo” (Revista Nova Escola)